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Projeto 16 horas – Edição: Fev.25 – Texto: “O andarilho” – Oswaldo Eurico Rodrigues

O andarilho

          Pisei num graveto. O estalo seco da madeira sem seiva foi forte. Esse simples som parecia arrebentar meus tímpanos e me trazia a ideia de ter pisado em ossos secos. Abaixei-me e tomei o galho pisado. Não, não era um graveto! Era um galho duma árvore desconhecida. Não sei há quanto tempo estava ali naquele chão verde da mata.
         Resolvi mudar o destino do galho quebrado. Como pisara bem próximo a extremidade esquerda do agredido, acabei por não reduzir muito do seu tamanho. Ainda havia uma bela peça de madeira a ser transformada por mim em cajado. Foi o que pensei. Seria meu cajado. E assim livrei um corpo da decomposição. Não o transformei em charmosa bengala dum dândi. Como espada sua sorte seria terrível. Faltou-me nobreza para transformá-la em meu cetro de rei. Não sou dândi, não sou gladiador e nem soberano de nenhuma casa real. Em realidade, sou um andarilho sem rumo.
         E segui meu caminho. Uma cobra tentou o bote. Acertei a vara em cheio na cabeça do bicho e segui pelo campo. O capim era alto. Dessa vez o cajado serviu de foice. Atravessei o rio e a vara mostrava onde dava pé.
         Na outra margem, a caatinga. Os espinhos arranhando minha pele. Afastava os arbustos com o galho que carregava. Andei e cheguei a um lajedo. Caminhei com sol a pino. Os rios secos. Sede. Fome. Cansaço.
         Cheguei ao deserto. Somente areia e céu. E calor. Nenhuma nuvem. O horizonte tremulava. O solo se ondulava e se revolvia. Lagartos e serpentes apontavam suas cabeças com línguas vibrantes asquerosas. Seria eu a refeição? Quisera eu jogar meu cajado ao chão e vê-lo transformado numa serpente maior que devorasse as demais daquele cenário. Ergui o bastão para o alto em total desespero. Águias imensas e tantas fizeram, por instantes, sombra sobre mim. Breve refrigério. Arremeteram-se ao chão em tal fúria e velocidade a ponto de nenhum dos répteis sobrarem.
         Subi montanhas de pedras escarpadas. Minhas mãos sangravam. Meus pés todos cortados. Encontrei neve e cicatrizei meus ferimentos no gelo. O gelo tem sido, ao longo de minha vida, um grande amigo. Anestesia-me sempre que necessário e meus músculos voltam a funcionar sem hematomas. Congela pessoas indesejáveis durante o tempo preciso da minha permanência em ambientes comuns.
         Num raro momento de retorno à infância, deitei-me sobre a neve. Meu corpo era meu próprio trenó e o cajado o freio. Fui descendo até a planície. Taiga e tundra. Flores minúsculas, líquens e musgos como os que revestiam meu cajado.
        Cheguei a um bosque de pinheiros. Um raio havia acertado algumas árvores. Uni-as numa jangada. Desci as corredeiras e cheguei ao mar. O cajado era um remo. Naveguei dia e noite. Onda por cima. Onda por baixo.
        Cheguei a uma praia. Coqueiros e palmeiras. Agora caminhava bebendo água de coco. Entrei no mangue. A lama grudava. Cheguei com as pernas petrificadas a foz dum rio. Banhei-me. Andei pelas margens e cheguei a um pequeno lago com cachoeira e uma caverna. Nadei até me cansar. Entrei na caverna. Finquei o cajado entre as pedras como cabideiro. Pendurei minhas roupas e memórias. Passei a viver nu e invisível naquele microcosmo para sempre


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

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