Marcelo Motta

A CASA DO LAGO – X

 

A FLOR E O ESPANTALHO
(e outras histórias)
Marcello Mello

 

A CASA DO LAGO – IX

 

Alguns dias depois. Ernesto, enquanto andava a toa pela rua, se encontrou com Ariseu, um amigo dele, talvez o único que realmente teve em toda a sua infância.
A cabeça de Ernesto ora e vez voltava aos acontecimentos dos dias passados. Tentava entender o que aconteceu, contudo, por mais que tentasse ele ainda não possuia capacidade ou discernimento para chegar a uma conclusão, fosse qual
fosse.
O que ele apenas sabia era que somente a sua mãe escutou uma voz que ninguém mais ouviu, sabia ainda que seu pai viu algo que somente ele, Mark, tinha visto. Ia ficar maluco se continuasse pensando em tudo aquilo fixamente…
– O Ernesto, que bom que te vi. – Disse Aristeu.
Aristeu se encontrava meio que chateado. Seu rosto não se fazia como sempre. Algo havia acontecido. Ernesto sabia que não adiantava perguntar. Pois Aristeu, quase sempre se mostrava arredio a falar ou responder algo quando se fazia pressionado, o que sempre realizava inadvertida e inconscientemente. Assim, Ernesto, preferiu não comentar nada sobre este fato. E deixar que ele falasse sem ainda que percebesse este fato.
– Que foi? – Respondeu Ernesto.
– Nada, não. Eu estava indo na sua casa. Ia te chamar pra gente brincar.
Naquele dia e naquela hora o sol estava a todo vapor, quente e abafado. Ernesto com menos de cinco anos preferiu abrir a janela da sua imaginação e deixar aqueles pensamentos insondáveis voarem para longe. Ele sendo criança podia se dar a este luxo, as quando se é adulto, quando se é adulto, é totalmente diferente, tentamos andar pela estrada da lembrança, mas estamos sempre naquele túnel onde as recordações sempre afloram no jardim da noite. E um daqueles dois meninos falou:
– E ai, Aristeu. Que é que você quer fazer? – Respondeu Ernesto meio secamente.
– Jogar bola, de repente. O que você acha? – Menino que era. Adorava futebol.
– Pode ser. Mas tá um calorzão. O que você acha de irmos nadar?
– Nadar?! Nadar aonde? No rio ou no lago? – Respondeu Aristeu temendo a resposta que não queria ouvir.
– O rio é perigoso. Tem correnteza, pode levar a gente. O lago é mais calmo. O que você acha?
A princípio a resposta de Ernesto se fez coerente e repleta de maturidade para a pouca idade que detinha.
– Sei não! O rio pode ser perigoso, mas o lago é mais. – Respondeu Aristeu temeroso.
– Como assim? Porque você está falando isso? – Indagou Ernesto curioso.
– Nada, não. Esquece isso. – Respondeu Aristeu se desviando daquele assunto.
– Bem! Então tá. Então vamos pro lago. Vem. Vamos nadar lá. A estas horas a água deve estar fresquinha.
– Mas eu… – E Aristeu foi logo a seguir censurado por Ernesto.
– Mas o quê? – Havia um tom de autoritarismo naquela indagação.
– Nada. Nada não. Mas depois você não vai me dizer que eu não avisei.
Medo ou pavor, Ernesto não sabia qual pesava mais naquela frase.
– Anda logo. Deixa de ser bobo.
– O que você está escondendo? Anda! Fala.
– Nada não. Esquece isso.
– Tá. Você que sabe.
Ernesto falou secamente. Ele bem que tentou descobrir a razão de Aristeu agir como agia, mas sabia que era de certa forma era o mesmo que “dar murro em ponta de faca”, sabia também que em breve, a verdade seria revelada, portanto, até então, desistiu deste seu intento.
Aos poucos eles foram saindo da estrada e entrando em uma mata fechada. O lago se fazia mais adiante. O coração de Aristeu ia acelerando. Sua pessoa tremendo… O sangue ia lentamente fugindo do seu rosto.
Um nervosismo do nada tomou conta daquele inocente garoto.
Aristeu viu alguns passarinhos cantando em um e outro galho. Pegou seu bodoque pendurado entre o pescoço.
Pegou um pedrinha no chão, esticou o elástico, já com a mira feita, segundos antes de soltar a pedra, foi censurado de modo imediato e enérgico por Ernesto.
– Faz isso não. É só um bichinho inocente.
Falou Ernesto demonstrando uma atitude ambiental que ainda não era modismo naquela época.
– Tem horas que você parece uma menina.
Aristeu disse isso totalmente contrariado.
– Você ia gostar de levar uma pedrada no pé, na perna ou em qualquer outro lugar? – Respondeu Ernesto.
– Claro, que não. Que pergunta maluca é essa?
– Então imagina o passarinho que nem sabe de nada do que se passa ao redor dele.
– Eu, Hein! Gente é gente. Bicho é Bicho. – Aristeu falou isso displicentemente.
– Now. Come on.
– Hein! Você sabe que não sei nada de inglês.
Ernesto já começara a esboçar uma e outra palavra em inglês, em breve falaria fluentemente dois idiomas.
Ele não podia saber, mas sua amizade com Aristeu seria para toda a vida…
– Agora, vem, anda logo me segue.
– Tá. Aristeu abaixou sua cetra totalmente inconformado. Temia pelo pior.
Quando saiu de casa Aristeu fazia-se naturalmente alegre, agora, ali, um falso sorriso nascia nos seus lábios. Ernesto e Aristeu se encontraram por mero acaso. Não planejaram nada antecipadamente. Falaram bobagens,
coisas de criança e a seguir foram para o lago, que dava frente para os fundos de uma casa, cerca de 70 a 100 metros.
A folhagem ia resvalando em um e outro. Ernesto furou o dedo em um espinho. Tratou de começar a chupar o mesmo. Uma e outra gota de sangue caiu no chão e parecia que regavam os sonos daqueles que já se foram para nunca mais voltar.
– Cuidado Ari. Tem espinho aqui na frente. – Falou Ernesto ao amigo que seguia poucos metros atrás dele.
– E urtiga também, né. Tou me coçando todo. – Completou Aristeu acerca dos “perigos e armadilhas” daquela vegetação frondosa.
– Eu também, tou, mas daqui a pouco passa. Você vai ver. Se você coçar, só vai piorar…
Quando deram por si já estavam diante daquele lago. Ernesto foi o primeiro a tirar a roupa e a mergulhar.
Aristeu ficou olhando e olhando. Observava ao redor. Temia que algo de mal acontecesse.
A felicidade é o combustível do espírito. A alma triste e pesarosa inicia coisas que não temos como discernir…
– Tá escutando isso? – Havia apreensão no seu tom de voz.
Somente ele escutava algo. Seu medo iniciou um processo inconsciente no seu interior.
– Eu não ouço nada. Vem! A água tá uma delícia. – Ernesto estava mais satisfeito que que perereca no brejo.
– Sei, lá! Acho melhor não. – Aristeu ainda se fazia reticente quanto a entrar no lago.
– Deixa de ser bobo. Vem logo. – Ernesto franziu o rosto e levantou somente uma de suas sobrancelhas, como se tentasse entender o que se passava.
E Aristeu acabou por se render. Tirou a roupa e no que ia entrando, molhou o dedo na água e se benzeu. Supersticioso que se era. Ele então, falou baixinho…
– Meu Deus… Me leva e meu Deus me traz. Amém.
Medroso por natureza. Ernesto não ouviu nada do que ele disse. Ele ficou ali, boiando na água a um ou uns dois metros de Ernesto.
– Que é? Virou religioso, foi? – Indagou Ernesto com sarcasmo na voz. Aristeu preferiu não responder. Brincar com certas coisas até vá lá, mas fazer isso com o nome de Deus ele se recusava terminante.
– Pronto! Tá bom pra você assim agora?
Falou Aristeu que sempre cedia a vontade de Ernesto, enfim, entrando na água.
– Hein! O quê? Não entendi. – Falou Ernesto sem entender absolutamente nada do que Aristeu havia dito. Ernesto boiava de frente para Aristeu e para o que seria a margem daquele lago, assim, encontrava-se de costas para aquela água toda.
E nem sabia para o que mais. Se soubesse bem! Está é uma outra história…

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