Desabafos & DiscussõesLuiza Moura

Memes de nós mesmos

É evidente que a pandemia Covid-19 trouxe dificuldades inúmeras para todas as camadas sociais e especialmente para aquelas mais vulneráveis do ponto de vista econômico. No entanto, não é possível negar que ela também trouxe avanços. Como professor e como psicanalista, venho há alguns anos acompanhando as discussões sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na área educacional e nos atendimentos clínicos e percebia que havia muita resistência, na maior parte das vezes infundada ou fruto de uma inexperiência e num medo infundado a respeito dessas ferramentas.

Rapidamente a pandemia acabou com essa discussão inútil e a questão foi resolvida. Professores, psicólogos, psicanalistas e médicos, por exemplo, tiveram que aprender a lidar com as TIC para poder seguir adiante com seus trabalhos. Isto representa o tipo de avanço que se dá em situações extremas como guerras e pandemias. A recusa insistente dos profissionais em participar desse processo espontaneamente era uma espécie de negação. Negação da realidade, de seu tempo, de suas dificuldades em aprender, da mudança.

Não sou nenhum defensor da tecnologia, ao contrário, penso que o uso que se fez dela seja responsável por agravar diversos problemas de nossa sociedade atual como o afastamento das pessoas próximas, a síndrome ou transtorno de dependência de tela, invasões de hackers e crimes cibernéticos, etc. Mas por outo lado a mesma tecnologia também foi usada para aproximar pessoas distantes, possibilitar a produção cultural a acessibilidade a essa cultura, sem contar os avanços na área médica e de diagnósticos.

O que tenho percebido, seja na retomada da universidade com as aulas e atividades remotas, seja na clínica é que as pessoas trouxeram para dentro do isolamento social os problemas que já tinham antes, mas que foram especialmente potencializados durante esse período. As redes sociais, um dos vários usos da tecnologia atual, se tornaram um desfile de sofrimentos e transtornos mentais para aqueles que leem essas redes como uma manifestação conotativa e polissêmica da realidade. Rapidamente as pessoas tentaram substituir sua solidão e seus vazios e tristezas, próprios do luto que a pandemia implica mesmo a quem não tenha perdido ninguém, por fotografias e postagens que tentam inutilmente sublimar as perdas. Almejam obstinadamente um retorno à “normalidade”, como se houvesse algo de normal na vida que tinham antes da pandemia. Questões antes abafadas e guardadas a sete chaves dentro de si mesmos, agora emergem inexoravelmente e o resultado é um crescimento alarmante dos casos que envolvem a saúde mental. No entanto, estas questões ainda tentam ser encarceradas para que se possa mostrar uma autoimagem de beleza, sensatez e exuberância, que está longe de ser real ou mesmo “normal”.

A dificuldade de perceber os próprios defeitos advém da dificuldade de olhar para si mesmo desapaixonadamente. Nesse sentido, nossa sociedade é narcísica por excelência já que platonicamente projeta um ideal a ser alcançado e exibido, não importando a impossibilidade disto. Redes sociais e tecnologias se transformam, dessa forma, em ferramentas da propagação de memes de nós mesmos. Um meme é uma imagem mínima reproduzível, uma faceta exibida que transmite uma ideia de algo ou alguém. Richard Dawkins cunhou esse termo comparando-o aos genes e sua transmissão biológica. Um meme é uma partícula transmitida mentalmente e, agora, virtualmente pela rede mundial de computadores. O problema nisso é que as pessoas querem que seu meme seja sempre de uma determinada forma e apresente uma versão ou faceta de si mesmo que seja bela ou perfeita.

Não somos perfeitos. Perfeito é algo feito por inteiro. Somos parte de algo maior que nós, a humanidade. Somos seres sociais e nossas ausências, vazios e defeitos fazem parte de um complexo processo de interdependência que constitui nossa principal estratégia de sobrevivência enquanto espécie. Enquanto acreditarmos na ideia de que somos indivíduos (uma ideia/meme que surgiu a pouco tempo no início da Modernidade), não conseguiremos expor nossas dificuldades e vazios, continuando a aumentar as estatísticas de transtornos e sofrimentos mentais que, uma hora ou outra, estarão nos divãs (presenciais ou virtuais) para aqueles que aceitarem olhar para essas dificuldades ou medicados com altos níveis de antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos para aqueles que continuem em negação de seu sofrimento.
A pandemia Covid-19 não trouxe novas dificuldades e vazios existências. Ela apenas expôs e escancarou aqueles que já carregávamos sem querer olhar para eles. Demonizar a pandemia ou a tecnologia como se fossem culpadas pelo processo epidêmico do sofrimento mental é sintoma de uma dificuldade em reconhecer-se a si mesmo.

(Esse texto é de Leandro Gaffo, Professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Geógrafo, Filósofo, Psicanalista, Mestre em Geografia Física e Doutor em Ciências da Religião.)

Participe também dessa coluna! Envie o seu texto (de desabafo ou reflexão) para o email lmsn_91@hotmail.com ou entre em contato pelo instagram @luiza.moura.ef. A sua voz precisa ser ouvida! Juntos temos mais força! Um grande abraço e sintam-se desde já acolhidos!

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Luiza Moura

Luiza Moura de Souza Azevedo é Natural de Feira de Santana- BA, Enfermeira, Especialista em Saúde Pública. Psicanalista e Hipnoterapeuta. Mestranda em Psicologia e Intervenções em Saúde. Compositora e Produtora Fonográfica. Com cursos de Francês e Inglês avançados e Espanhol intermediário. Imortal da Academia de Letras do Brasil/Suíça. Acadêmica do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires. Membro da Luminescence- Academia Francesa de Artes, letras e Cultura. Membro da Literarte- Associação Internacional de Escritores e Artistas. Doutora Honoris Causa em Literatura pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Publicou o livro: “A pequena Flor-de-Lis, o Beija-flor e o imenso amarElo”. Instagram: @luiza.moura.ef

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