Marcelo Motta

EXECUÇÃO SUMÁRIA – III

Marcelo Motta

 

A FLOR & O ESPANTALHO
(E outras histórias)…

EXECUÇÃO SUMÁRIA – III

     A notícia rapidamente chegou aos ouvidos de Ernesto, seu pai, que não teve outra atitude, a não ser pegar seu rifle de repetição, um Winchester, embora quase sempre usasse seu FAL, tanto um como outro, pertencera ao seu falecido pai, Mark.
Foi para sua casa e tomou o rastro daquele que matou sua filha, contudo, a notícia chegou distorcida ao seu entendimento, apenas soube que sua filhinha havia sido morta, porém, não por quem teria cometido este crime brutal, este pecado mortal.
Ernesto havia entrado intempestivamente na sala da sua casa. Foi até a parede e pegou a dita arma. Seu olhar embrutecido e colérico, feroz e cruel dispensava explicações. Cyntia temendo o pior, e estava correta quanto a isso disse:
– O que foi? O que aconteceu? Pra que esta arma. O que você vai fazer?
Cyntia se jogou bem a frente dele, na inútil esperança de que este ato pudesse de alguma forma contê-lo. Mas foi tão fútil como é a natureza feminina no seu todo.                                   – Sai da minha frente. Tem algo que só eu posso resolver. – Qualquer outra palavra se fazia desnecessária. Cyntia conhecia muito bem a índole do seu marido. Ela sabia que algo terrível estava por acontecer, apenas não sabia o quê.                                                          Ele a colocou de lado e saiu tão determinado como entrara. usando de uma racionalidade quase insana e controlada devido ao momento. O ódio fervilhava de seus olhos, estes eram vulcões cuspindo lavas e lavas…
O  mal era uma flor que emanava seu mais nauseante perfume. E este começou a impregnar o ar, não somente daquela fazenda, entrementes, como de toda aquela cidade.       Ernesto pegou sua mais poderosa arma de fogo, entrou na caminhonete e seguiu a sua intuição, mal sabia ele que  não iria muito longe.

Assim que saiu com seu veículo pela porteira da sua fazenda ele viu uma turba ensandecida correndo, invadindo sua plantação de milho.                                                          A caça já não se encontrava a vista de Ernesto. Encostou o carro ali, a poucos metros de onde saíra com ele. E seguiu a pé na direção daquela massa de animais famélica. Em breves minutos saberia de tudo quanto havia acontecido.
Fábio corria descompassadamente e momentos antes acabou adentrando ironicamente o milharal da fazenda do seu próprio pai. Estava fora de si, completamente nervoso… Não sabia o que fazer e nem mesmo como agir. Somente um milagre o tiraria daquela situação infernal.
Ernesto era aquele que sua Amélia ironicamente insistia que Fábio deveria chamar de seu pai.                                                                                                                                         Rapidamente o fazendeiro soube do paradeiro de todos, e seguiu novamente direto até sua propriedade, aonde a estas alturas já se encontrava apinhada de sedentos justiceiros.
Subitamente um grito se fez, ecoando por toda a plantação junto ao disparo de sua espingarda. Deu um tiro para o alto. Queria total atenção. Tratava-se de Ernesto que dizia, bramando como um leão enfurecido, sedento por sangue e faminto, não por justiça, mas por vingança.
– Afinal de contas, o que está acontecendo aqui?
Disse Ernesto com o tom de voz totalmente encolerizado por testemunhar ali, a invasão de sua propriedade, e mais ainda por saber do que havia acontecido com sua filha caçula.
– A Patricinha… Sua filhinha ela foi morta.
Disse um dos invasores.
– Isso eu já sei.
– Então nós seguimos quem matou ela até aqui. Com certeza está escondido na sua plantação. –  Falou um entre tantos que compunha aquela matilha de cães a perseguir a inocente raposa.
– Então este maldito é meu. Eu quero ele morto, seja ele quem for. Eu dou 30 mil cruzeiros para quem me trouxer ele ainda com vida… Eu faço questão de matá-lo pessoalmente.
– Então o senhor não sabe quem foi? – Respondeu mais um entre todos aqueles perdidos.
– E nem quero saber. Só quero este calhorda morto. Só Isso. Deus me livre deste pecado, mas sou até capaz de beber o sague dele se for preciso.
Havia mais do que cólera em suas palavras.

Fábio escondido de longe, testemunhou aquela conversa descabida. Temia pelo pior. Morrer pelas mãos de seu próprio pai.
Seria uma monstruosidade sem precedentes.
Os animais, quase que no seu todo, são aqueles que matam para manter a própria sobrevivência, contudo, o ser humano é o único que realiza este ato por puro prazer. Isso estimulado a uma paga de alta quantia… Fazia da mesma – uma situação
duplamente interessante para saciar tal fúria da alma humana. Aves de rapina, eis o que todos ali eram…
E iniciou-se uma busca maciça, uma caçada desenfreada, à cata do fruto plantado por Ernesto em seu passado, somente para satisfazer um capricho, uma vaidade, um desejo de sexo e poder.
Ernesto destilou e fomentou por isto em seu passado. Após quase meia-hora, muitos já haviam desistido de procurá-lo.
Nisso a recompensa já somava mais de 150 mil cruzeiros.
Assim, cada um seguiu à esmo pela plantação, espigas de milho iam ao chão, porém, Ernesto parecia não se importar com nada disso, somente queria vingança. Matar fosse quem fosse que teria dado fim a vida de seu tesouro mais precioso.
Ele nem desconfiava de quem era. Longe do fazendeiro um murmurinho e outro se dava, quase sempre com o mesmo sentido e fraseado.
– E ai? Devemos contar que foi o próprio filho dele que fez esta monstruosidade?
Disse um deles.
– Sei lá! Acho melhor não. Melhor deixar ele descobrir por ele mesmo. Pode sobrar pra quem falar. – Respondeu com ar temeroso o outro.
– É! Netinho sabe ser impiedoso quando quer. Deixa isso queto, sô.
Respondeu mais um, dando uma cusparada no chão, logo a seguir limpou a boca com a manga da camisa.
Até aquele momento Fábio se fez inexistente. Nisso Ernesto percebeu o espantalho da sua plantação tremendo, balançando, mas como poderia ser isso, se não estava nem mesmo ventando? O tempo mostrava-se calmo. Somente ele estava com um vendaval na própria alma.                                                                                                                                 Sua mente ensandecida via-se prestes a ser arrancada do próprio corpo, se envergando tal qual uma árvore se curva, pela ira descabida da natureza, quando esta se entrega a força incomensurável de uma tempestade repentina.
Seu espirito, ali, pedia por sangue. Somente isso saciaria a sede que fomentava no seu íntimo…
Os olhos de Ernesto faziam-se completamente tomados por lágrimas. Uma emoção incontrolável tomou conta de toda sua pessoa.
O pior lado da sua índole aflorara. Sangue é o que esta clamava.

Aproximou-se e olhou firmemente na direção do espantalho e mirando fixamente nos olhos daquela figura sem vida, a qual até mesmo as aves de rapina já desprezavam, por sua apatia e imobilidade. Notou haver alguém em seu interior, usando aquela fantasia quase sem nenhum objetivo prático, para se esconder.
Ernesto teve a súbita impressão de haver um quê de familiar naquele par de olhos, porém, isto somente poderia ser uma miragem, uma ilusão provocada pela dor daquele momento, pela emoção de perder sua filhinha, nada mais que isso. Então o que mais poderia ser?
Os olhos de Fábio brilhavam, tomados pelo terror dentro daquela fronha velha. A possibilidade de morrer, de não mais existir, o deixou simplesmente com os nervos à flor da pele, também, um gesto que fosse. Acaso se traísse por baixo daquela roupagem, isto o denunciaria com certeza… E foi exatamente isso o que aconteceu.
Ernesto viu aquele par de olhos com tantas ou mais lágrimas das que havia no dele. Não reconheceu de quem se tratava.
Não reconheceu o fruto de seu sangue. a semente da sua carne bem diante dele…
A emoção, o transtorno pelo qual passava, não permitiu que isto se desse. Mas sabia que era o maldito facínora que ele procurava.
Somente poderia ser. Não haveria de ser outra pessoa. Entretanto, o destino mostrava-se contra Fábio… Inconscientemente acabou se denunciando. Seu tempo de vida fazia-se mínimo, ínfimo demais para cogitar ainda quantos segundos ou minutos viveria, porém, a eternidade é o tempo que nunca finda…
A noite já havia domado a luz do dia. Ernesto teve a nítida impressão de que era um homem negro camuflado por aquelas vestes, como seu filho bastardo, porém, esta era uma hipótese que ele nem sequer cogitou. A conclusão que poderia ser Fábio era estapafúrdia demais.

Ali, presa e predador se miravam fixamente. Ernesto se virou, pôs a espingarda sobre os ombros, andou alguns passos. Um sorriso maquiavélico se fez em seus lábios e face.
Virou-se novamente, apontou a arma para a figura esquálida a sua frente.
Os olhos de Fábio estavam estagnados, visando fremente àquela arma que agora o mirava, somente aguardando pelo pior. Seu fim era próximo e temia pelo mesmo.
Fábio começou a tremer e a chorar devido ao pavor que lhe assomou o ser. Tentou falar alguma coisa, se explicar, contudo, a voz não saia. O nervosismo não permitiu que ele se defendesse.
O rosto de Fábio suava frio. Sua morte iminente se aproximava. Subitamente um tiro se fez e preencheu todo o ar. Ernesto acertou precisamente no meio da testa de Fábio. Sua cabeça se estilhaçou, sobrando somente um corpo do pescoço para baixo, fora praticamente decapitado…
O Corpo de Fábio pendeu e estremeceu como se fosse vítima de um espasmo muscular, em uma convulsão frenética e involuntária.
Fábio morreu ali mesmo tendo como carrasco e algoz seu próprio pai.
Assim, a profecia se cumpriu duplamente naquele triste dia… E Ernesto nem atentou para este fato.
Amélia nem poderia desconfiar que a maldição proclamada por ela, teria como vítima o único fruto do seu corpo. O destino se tecia de forma irônica e impiedosa. como fosse uma teia das pétalas de diversas flores e incontáveis espinhos.
– Melhor assim! Matei o desgraçado e ainda economizei um dinheiro.
A satisfação ecoava em cada uma daquelas palavras.

Continua…

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