Marcelo Motta

O FUGITIVO – II

Marcelo Motta

 

A FLOR E O ESPANTALHO
(e outras histórias)

 

O FUGITIVO – II

 

Cyntia e Amélia ao longo do tempo desenvolveram um estranho laço fraternal de amizade.                                                                                                                                       Cyntia a enxergava como uma vitima das circunstâncias, e isto realmente era o que se dava, porém, para Cristina, Amélia não passava de uma aproveitadora, uma ladra de homens, que não amava Ernesto, que apenas se entregara a ele, pelo rio de dinheiro que ele possuía e pelo conforto e boa vida que Ernesto, propiciava a ela, Cristina, o que não deixava de ser verdade.
Mas Amélia nunca viu uma única moeda da fortuna de Ernesto. E nem desejava dele nada nesse sentido. Isso a faria se sentir pior que uma reles prostituta de beira de rua. Ele fez da vida dela a mais humilhante e vil que se possa imaginar. A vida de Amélia resumia-se a mais profunda miséria existencial.
Nesse contexto, Amélia ao longo de sua vida se fez uma quase analfabeta e mal sabia escrever o próprio nome. Fora uma conta ou outra para não ser enganada com dinheiro. Desconhecia tudo o mais a respeito de educação e cultura. E quando engravidou. Ernesto lhe privou de toda e qualquer assistência, e ainda se negou a assumir a paternidade de seu filho.
Amélia o amaldiçoou naquele dia, dizendo que ele haveria de pagar por tudo quanto a fizera passar e sofrer e que isto ocorreria com a dor e a perda do seu próprio sangue e ainda da mesma forma. Malgrado, ao longo do tempo nada aconteceu neste sentido, ou algo que confirmasse aquela estranha profecia de mau agouro.
Entretanto, naquela tarde, quando Fábio passava em frente à casa de Cristina, que o desprezava igualmente pela sua cor, e mais ainda por ser o fruto, a semente e o filho o qual ela não conseguiu dar a Ernesto. Foi quando subitamente, ele, ouviu um grito de criança.
Pelo tom estridente parecia ser de uma menina de poucos anos de vida, ele, Fábio, a principio, se assustou, entrementes, não se conteve. Assim, ele movido sabe-se lá por qual intuito, saiu correndo na direção daquele grito infantil.
Bateu na porta da casa de Cristina, mas nem ela nem ninguém o atenderam. Ele então começou a rodear a residência e quando chegou aos fundos da mesma, testemunhou a porta da cozinha entreaberta batendo no portal pela ação de uma leve
brisa daquele momento.                                                                                                                Dizer que se encontrava somente nervoso era pouco. Fábio mostrava-se tão atarantado e apreensivo com aquele grito que nem percebeu a trilha de sangue, na qual pisou, saindo da casa, do lado de fora. Nem mesmo viu o pedaço de pano xadrez,
rasgado de camisa, preso a um prego naquele portal, provavelmente do verdadeiro criminoso, pois um crime havia sido cometido, e agora o filho rejeitado de Ernesto estava prestes a testemunhar o ato insidioso do mal que este originou…
– Dona Cristina! Dona Cristina! A senhora está em casa?
E um silêncio estridente ressoou como resposta.
Chamou por Cristina, entretanto, ela novamente não o atendeu. Resolveu, assim, entrar, mesmo sem ordem, e foi o que fez, sem perceber pisou no sangue no chão do lado de fora e deixou um rastro de pegadas escarlates misturadas com o barro do quintal. Criou um cenário, um barril de provas que seriam usadas contra ele, inocente que era…         Repentinamente, ele, então se chocou com o que testemunho. No chão, caída e sangrando, estava Patrícia, sua meia-irmã, nunca teve a oportunidade de conhecê-la. Seu pai o privara de conviver com seus filhos legítimos. Sim! Ernesto assumiu publica
e oficialmente a paternidade de Patrícia, mas não o fez por ele, para Fábio, que no entanto, parecia não se incomodar com este fato, contudo somente parecia.
Sua alma bem que reclamava periodicamente por esta justiça, a qual ele jamais viu… lá no fundo do seu ser, sentia-se melancólico e desprezado – ele nutria certa inveja por Patrícia e todos seus irmãos. Eles tinham tudo. E ele, Fábio, praticamente quase nada…
Ernesto o tratava pessimamente, pior do que um cachorro sarnento. Mesmo assim, ocasionalmente lhe dava uma roupa ou algo parecido, porém, nunca nada novo. Tratava-se sempre das sobras de seus meios-irmãos. Ele já havia se acostumado com todo este desprezo.
Até mesmo o único aparelho de televisão da sua casa, era de um modelo e marca remanescente do fim da década de 60. Uma TV da marca Colorado, a válvula. Esta chegou com defeito. Foi à migalha máxima ofertada por seu “digníssimo” pai…
Se acaso Fábio não tivesse realizado pequenos serviços, capinando um quintal, pintando uma cerca e outros mais, economizando, assim, para consertá-lo, nem isto eles teriam.
A televisão era algo fascinante para Fábio. Conectava não somente ele, mas todo o planeta de forma geral. Noticias lhe vinham todos os dias de cada parte do mundo. Não conseguia entender como “alguém” poderia caber dentro de uma “caixa” tão pequena, às vezes mais que uma pessoa apareciam ao mesmo tempo.
Ele via a TV como um mistério acima de todo e qualquer outro que ele já testemunhara. Era ingênuo e inocente, Inteligente para determinados aspectos e imaturo para tantos outros…                                                                                                                     Uma vez quando foi a Igreja Católica, o padre, puxando assunto, após o fim da
missa lhe fez a seguinte pergunta:
– Meu filho! O que você deseja aqui na casa de Deus?
A resposta aturdiu aquele clérigo.
– Quero entender Deus.
Então o padre lhe falou:
– Que bom. Se conseguir fazer isso – me explica, porque Deus não é para ser entendido. Deus é para ser sentido. Quando sentimos a presença de Deus em nossas vidas. Tudo muda. Passamos a enxergar a vida de outra forma…
Foi o que fez Fábio deixar de querer entender o mundo intrínseco da televisão, resolveu aceitá-lo como este se fazia para ele, nada mais que isso.
Tudo isso apenas fazia de Fábio um rapaz mais infeliz. O conforto lhe foi sempre negado…
Estudar para ele era um luxo, assim, ele agarrava-se a este fato, sonhando que isso faria com que ele pudesse vir a ter um futuro melhor do que a vida que levava até aquele momento. Acreditava nisso piamente. Este era o desejo e a força maior que movia seu coração.
Vendo Patrícia, ferida e prostrada à sua frente, se lembrou de um filme que assistiu há poucos dias na televisão, mais especificamente de uma cena em que o personagem principal traz seu amor de volta à consciência, fazendo respiração boca-a-boca e
acreditando saber realizar o mesmo procedimento, se abaixou e pôs seus lábios nos dela, e, assim, começou a impelir ar nos pulmões de sua pequena, frágil e dócil irmã.
Sem saber realmente o que fazia, ele continuou, muito provavelmente por inexperiência ou ingenuidade. Desconhecia o fato de que ela já estaria morta e que fora vítima do mesmo ato maldoso, torpe e irracional que o colocara no mundo.
Patrícia fora violentada e Fábio nem sequer desconfiava disso. E enquanto estava abaixado, tentando trazê-la inutilmente a vida – se assustou novamente com um novo grito.
Agora Luana a irmã invejosa de Cristina apareceu repentinamente do nada. Ela testemunhou ali, em ato flagrante, aquela cena, para ela, horrorosa, surpreendendo Fábio naquele cenário, para ela, terrível e criminoso.
Ela viu o que viu e entendeu tudo errado. Da forma como sua natureza feminina lhe concebeu discernir… Nada mais precisava ser dito. Estava tudo às claras, bem ali, diante dela. Então, ela, Luana, começou a gritar em total histeria:

– Socorro! Socorro! Tarado! Maldito! Socorro! Socorro!
Luana pegou uma vassoura próxima dela e começou a bater com a mesma em Fábio, ou pelo menos, tentou, mais parecia uma bruxa totalmente histérica, tresloucada, se colocasse aquela vassoura entre as pernas, era quase certo que pudesse sair voando. E ele, temendo pelo pior saiu correndo totalmente assustado.
Seus gritos chamaram a atenção dos vizinhos mais próximos. Estes saíram cada um para seu quintal, e viram Fábio, ali, apreensivo e ofegante. Correndo, saindo da casa de Cristina… Parecia que não sabia o que iria fazer. Olhou rapidamente para um lado e para o outro da rua. E do nada deu a correr, sem rumo ou direção, apenas corria desenfreadamente.
– O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Perguntou Hélio, o técnico em eletrônica da cidade, estando em casa naquele momento, fazendo o lanche da tarde. Poucos segundos depois de Fábio chegar à rua, Luana, movida por certa intuição foi até o corpo inerte de Patrícia, e constatou que além de morta, havia sido vitima de um estupro. Sua vagina sangrava vertiginosamente.
Um bandido qualquer cometera aquele ato bárbaro, e Fábio estava prestes a pagar por este crime insano. O justo iria pagar pelo pecador, como quase sempre acontece.
Luana levantou-se escandalizada com toda aquela situação mais que hedionda. Mulher que era, mostrava-se completa e totalmente estarrecida
e chocada.
Sua alma fremia demais para permitir que ela pensasse coerentemente, mesmo invejando secretamente sua irmã. Não deixou de se emocionar com
aquele cenário, o qual se descortinava cruelmente sobre seus olhos.
E, apesar dos pesares Patrícia era sua sobrinha, a filha que no seu íntimo gostaria de ter dado a Ernesto, não obstante, infelizmente o destino assim não o permitiu, afinal de contas, foi por Cristina, e não por ela, que Ernesto se apaixonou propiciando uma vida de conforto e segurança… Tudo o que nunca ofertou a Amélia…
Ela começou a chorar histericamente, e com a boca e as pernas trêmulas saiu dali completamente espavorida. Estava nervosa demais para pensar corretamente. Nisso Luana apareceu na janela da sala voltando a gritar:


– Pega! Pega! Tarado! Ele matou a Patrícia. – E depois abaixou a cabeça como e tudo fosse uma encenação.
Muito possivelmente naquele preciso momento começava a se cumprir a profecia que Amélia havia conclamado anos atrás.                                                                                             Ele, Fábio, desesperado recomeçou a correr, temendo pelo pior. Repentinamente, havia uma turba ensandecida em seu encalço. Jovens, idosos, mulheres.
Cada um armado de alguma forma, com um pedaço de pau. Outros com uma barra de ferro, uns com facões e enxadas e toda sorte de objetos cortante ou não. A intenção era somente uma, linchá-lo e, desta forma, promover “justiça” da forma mais injusta com as próprias mãos.

Continua…

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