Marcelo Motta

O DIABO VESTE PRATA – I

Marcelo Motta

 

A FLOR E O ESPANTALHO
(e outras histórias)
Marcelo Motta

O DIABO VESTE PRATA – I

     Esta é uma história real que ganhou ares de ficção. Nomes de pessoas e Lugares foram alterados, com a finalidade de proteger suas identidades. Com o passar do tempo transformou-se em mais uma, entre tantas lendas urbanas…
Transcorria o ano de l977. No interior do estado mineiro, mais precisamente na cidade de Logo Ali, especificamente em um “pequeno”, porém, promissor latifúndio.
Uma tragédia como tantas outras se deu. Esta, entretanto, foi “abafada”, pelas autoridades locais. Há quem diga que este foi o fato o qual deu origem ao que hoje recebe o nome de tráfico de influências, contudo, esta situação antecede o lendário senado romano da época dos distantes césares.
Perdido lá atrás no lento decorrer do relógio do tempo, aonde cada hora que se passa rouba um ou outro prazer da nossa vida… era o fim da tarde de um “inicio de um fim de semana”.                                                                                                                                       Uma agonizante e póstuma sexta-feira, no decorrer do funéreo dia 16 de agosto, naquele mesmo dia, morreu o Rei do Rock – Elvis Presley, porém, mais precisamente dizendo. Fábio, também conhecido por Binho, de aproximadamente 14 anos voltava do colégio.
Ele era um rapaz inteligente, e dedicado a sua mãe e um pouco alto para sua idade. Também era negro, puxou a raça da mãe geneticamente falando, e por este motivo constantemente via-se vítima do preconceito racial de todos os moradores, de mente estreita e tacanha daquela cidade.
Filho bastardo do fazendeiro mais rico e poderoso da região, nunca recebeu o afeto e amor, bem como a devida consideração e carinho do seu pai, e estes lhe seriam tão úteis em sua vida. E isto era tudo quanto mais necessitava, a referencia paterna que nunca, jamais teve.
Seu pai há pouco menos de 15 anos, praticamente estuprou uma de suas empregadas, em meio a sua plantação de milho, testemunhas vivas deste crime hediondo, nenhuma, a não ser um espantalho inanimado que rodava na sua cruzeta de um lado para outro… enquanto Ernesto se deliciava com o sabor daquele corpo que emanava seu doce pecado carnal.
A juventude e beleza desta mulher deflagrou o fim da existência, de todos os quais faziam parte daquela triste história de sexo, amor e traição… a trilogia básica que sempre causam esse tipo de infortúnio – pois neste contexto repousa o verdadeiro teor da semente que faz nascer, germinar e crescer o fruto do adultério.
A ingênua e sonhadora Amélia dos Santos “seduziu e enfeitiçou” o dito agricultor, porém, inocente e inconscientemente, ela, assim, o fez. Ela não teve nenhuma culpa. Seu único pecado foi nascer. Nascer com formas e contornos, as quais faz com que qualquer homem, se sinta devastadoramente atraído. era como um imã atraindo todos os olhares de desejos de cada homem, solteiro ou casado, não havia aquele que não desejasse provar o sabor daquela carne de mulher. Esta se transformou em sua sina e maldição…
Ernesto, o fazendeiro, malgrado, não conseguiu resistir ao charme natural e a gama de sensualidade pessoal e ao corpo escultural, curvilíneo e sedutor de Amélia. Viu-se vítima da armadilha arquitetada por ele mesmo.                                                                          Ernesto, o fazendeiro em questão vivia aparentemente um casamento sólido e feliz, porém, nem só de aparência sobrevive um matrimônio.
Ernesto era um narcisista convicto, ostentava cordões e anéis de prata, apesar de ter tudo isso em ouro também…
Sua esposa, Cyntia parecia resignar-se com a vida boêmia e ladina a qual seu marido levava paralelamente, se dando a bebedeiras, jogatinas e encontros furtivos com mulheres levianas e profissionais dedicadas a esta “nobre arte do sexo e do prazer”. Trabalhadoras assíduas do único prostíbulo daquela cidade medíocre, hipócrita apocalíptica.
Corria a boca pequena que Ernesto era o proprietário deste bordel, porém, nada ficou provado sobre isso, mas isto foi absolutamente dado como fato certo, pois mais de 80 por cento dos imóveis de Logo Ali, eram de sua propriedade.                                                            Entretanto, os rumores corriam soltos pela cidade, e mais ainda, diziam que por ele ser o dono, intimava praticamente todas as moças a se entregarem sexualmente primeiramente a sua pessoa.
Isto se fazia humilhante e vergonhoso, mesmo para elas, contudo, este era o preço a ser pago por estas meninas, muitas de beleza rara, que levavam na alma o perfume de flores podres. Quem olhava via uma mulher dócil, meiga, carinhosa e mesmo assim, seguiam sofrendo neste mundo que “escolheram” viver.
Há quem diga que o meretrício e a leviandade são atributos naturais da alma feminina, pessoalmente não concordo com esta definição.
Ou faziam isso, ou se prostituíam pelas esquinas e ruas, fato o qual não era nem um pouco recomendável, pois assim se entregariam a própria sorte e dor que o mundo as impingiriam.                                                                                                                                    Assim, na rua estariam ao sabor do vento, sem nenhuma proteção, fato o qual
Ernesto propiciava “carinhosamente” as mesmas. em dizer que poderiam ser vitimas de toda e qualquer maldade, até mesmo de crime ou assassinato.
E claro se beneficiava do calor de seus lábios os quais emanava leve e suavemente um sabor de almíscar açucarado com uma leve essência de jasmim, porém, o mais certo é que um dia todas elas teriam o mesmo fim…
Ernesto, ou Neto, ainda frequentava tantas outras casas de má reputação de Logo Ali, cujos princípios de integridade e moral somente eram praticados da boca para fora. Entretanto, o que se fazia disseminado era a lascívia, a luxúria a imoralidade e toda sorte de atos libidinosos e promíscuos, conhecidos ou não até então.
Babilônia, Sodoma e Gomorra teriam de aprender muito nessa área com Logo Ali para se equipararem promiscuamente com a mesma.
Ernesto mostrava-se praticamente como um rufião e ainda se vangloriava disso. Agia assim, na expectativa de levar para a sua propriedade tantas e tantas mulheres quanto pudesse, desde que fossem jovens e novas e cada uma mais bela que a outra. Era um Sheik e elas suas odaliscas.
Mas a verdade se fazia ambígua, existia outra razão. Ernesto mantinha uma outra concubina, uma amante. Esta se chamava Cristina e a tirara daquela existência leviana, onde exercia a mais antiga das profissões, aonde ela levava uma vida sofrida, na verdade, a mais dura e difícil de todas.
E quando a oportunidade de se amasiar com o rico fazendeiro se fez, Cristina não hesitou minimamente em agarrá-la. Ernesto possuía uma filha com Cristina, esta era a pequena Patrícia, a qual germinava para o mundo, com a tenra idade de três anos. Um anjo rebelde, mas ainda assim um anjo entre todos os anjos.
Assim, Ernesto seguia sem rumo em seu destino de perdição. Desconhecia e nem queria saber o que significava a essência da palavra… redenção. Isso para ele soava com grande teor e peso de mitologia. Era dessa forma que “via” Deus. Para ele Deus era uma criação da Igreja Católica que se apoderou e deu ao Mesmo elementos do lendário deus greco-romano, (Zeus) e atribuiu um poder supremo ao Senhor de toda criação e de tudo que existe e já existiu na face da Terra.
Um ateu, um cético convicto, eis o que era Ernesto, entretanto, todos temos o direito de pensar da forma que melhor nos convier. A de Ernesto se fazia deste modo: tolhido e limado; uma consciência que foi modelada por um esmeril dividido por duas culturas e tradições tão distintas e ao ainda similares…                                                                               Um ser humano vil e degradante que se fez nada sociável no decorrer de tantos e tantos anos. Teve uma infância conturbada voltada para a mediunidade, fator genético herdado da parte masculina de sua família.
Este se fazia o fato mais humilhante para Cyntia, sua esposa, pois Ernesto não teve a mínima decência em esconder dela e de qualquer outra pessoa a sua vida dupla. Isto se mostrava degradante e vergonhoso para Cyntia, que curiosa e misteriosamente, sem revelar a razão, ainda mantinha-se fiel e dedicada a Ernesto, que somente sabia tripudiar em cima de seu coração e de seus sentimentos femininos.
Ele parecia possuir um prazer mórbido em agir dessa forma tão insidiosa para com ela. Cyntia era uma aficionada pela mitologia greco-romana, assim em acordo com Ernesto decidiram que seus filhos receberiam nomes referentes aos lendários deuses do passado.
Na ordem correta estes foram: Aquiles, Adônis, Hera, Apollo, Minerva, Dionísio, e a pequena Diana, portanto, no seu total 7 filhos – 4 meninos e 3 meninas.
Aquiles foi o primeiro de todos os filhos. Ainda hoje seu paradeiro é um completo mistério. Desapareceu na própria maternidade. Atualmente constaria com 27 anos.                 Ernesto ainda naquela época, não possuía a alma tão cruel e insidiosa.  O tempo mutilou sua essência, assim, anos atrás mostrava-se uma pessoa mais afeita e de bom coração. Deste modo, concordava com tudo, ainda que fosse para proteger seu ente mais caro de um sofrimento desnecessário, e esta era Cyntia.
Assim, não soube o que dizer a sua esposa, e inventou que seu primogênito havia morrido de complicações no parto.
Os médicos concordaram imediatamente, era isso ou uma má reputação que desabaria sobre a maternidade. Assim, a direção da clinica, na época, fez “vista grossa” e ficou o dito pelo não dito. O que era de total interesse da maternidade.
Ernesto enterrou um caixão de “corpo fechado” e vazio. E até a presente data Cyntia ainda visitara, sem saber da verdade, o túmulo de um filho que não existe como tal. Somente a sepultura. Nada mais que isso.
Esta foi a maior das crueldades que Ernesto fez contra Cyntia. Ele jurou pela própria alma que jamais contaria a verdade para sua esposa, porém, somente o fio do tempo seria capaz de dizer se ele conseguiria arcar com esta promessa? E se este fato acarretaria outros caminhos?
Uma das poucas lembranças que guardava de seu filho desparecido, era a marca de nascença que ele tinha na palma da mão, aliás, todos seus filhos tinham esta mesma marca, em diferentes partes de seus corpos.
Logo após nascia Adônis, com 25 anos seria, portanto o mais velho. Ocasionalmente acometia-lhe fortes enxaquecas, na sequência fatos inusitados sempre aconteciam, entretanto, não tratava-se de nada orgânico, muito pelo contrário, referia-se a algo hereditário, fora da compreensão de muitas pessoas que se prendem a tantos convencionalismos.
Ernesto nem poderia imaginar que Adônis era a reencarnação do seu próprio pai, Mark. Ernesto não possuía discernimento para acreditar em Deus, mas acreditava nas forças do sobrenatural, pois já vivera incontáveis casos nesta área quando ainda era somente uma criança…
Hera encontrava-se com 23. Aparentemente objetiva e determinada. Já traçara todo o seu destino. Estava no último ano de medicina e seria a primeira doutora da família.          Fazia-se o orgulho máximo do pai.                                                                                                Na sequência nascia Apollo. Estava com 18 anos e seguia firme e veementemente os passos do pai. Companheiro, amigo e confidente de Ernesto, o acompanhava em sua vida de libertinagem. acabara de entrar para a carreira militar, disciplinado desde a infância.
Sempre teve fascínio por aviões e paraquedismo. Optou como carreira a Aeronáutica e fazia-se o orgulho de sua mãe. Porém, sem saber a vida lhe reservava outro caminho, e isso mudaria o rumo e a vida de todos daquela família em pouquíssimo tempo. Tratava-se apenas de esperar, nada mais que isso.
Minerva, ainda perdida entre seus 14 anos não se importava com absolutamente nada. Encontrava-se predestinada a viver a vida como esta se mostrasse, não questionaria nada. Apenas pretendia viver e viveria a bel-prazer…                                             Seria tão bom se todos pudéssemos ter esta concepção. sofreríamos menos com os dissabores que sempre nos defrontamos.
Dionísio mostrava-se mais voltado para o campo das artes, e seguia pelo mundo com pouco menos de 13 anos. Possuía um talento natural para desenhar, esculpir, pintar e tantas outras atividades ligadas à arte e cultura.
Isto não agradava em nenhum aspecto o seu pai, que com sua visão de mundo preconceituosa, estreita e tacanha – julgava-o ligeiramente efeminado, assim enxergava neste seu filho como sendo a ovelha negra da sua família.
Ernesto não o “entendia” e Cyntia o rejeitava aos olhos do marido, entrementes, o apoiava na surdina.
A caçula, uma menina, chamava-se Diana e ainda estava na flor da vida, com somente 5 anos de idade e desfilava pelo mundo exalando e destilando todo o aroma e frescor da sua infância. Assim mostrava-se como o botão de rosa da família deste casal tão fora do compasso da realidade…
Duas semanas antes de fazer 15 anos, Ernesto e Cyntia haviam sepultaram Minerva. Vitima de uma súbita infecção nas meninges. Eles nem poderiam desconfiar, a cachoeira de tragédias que estava por desabar sobre todos eles.

(CONTINUA)…

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