Desabafos & DiscussõesLuiza Moura

Lendo Lolita 35 anos depois

Nasci numa casa onde não havia nenhum livro, mas convivi com muitos contadores de historias e assim que aprendi a ler me tornei leitora voraz. Ainda adolescente li praticamente todos os romances da literatura romântica brasileira. Depois adentrei nas obras clássicas das literaturas americana, inglesa, francesa e russa publicadas em português. Muitas dessas obras eu li sem ter maturidade e bagagem de conhecimentos para compreendê-las. Entre essas, destaco o romance “Lolita” do escritor russo Vladimir Nabacov publicado em 1955, na Inglaterra. Houve muita dificuldade de publicá-lo por causa de seu conteúdo sexual que provocava o repúdio dos editores e, em muitos países, ele foi proibido. Mas o sucesso foi estrondoso e essa obra se tornou um clássico da literatura inglesa, traduzido em várias línguas.

Quem nunca ouviu esse nome “Lolita”? Mesmo quem nunca leu o romance ou assistiu a uma versão cinematográfica já ouviu a palavra “ninfeta” termo cunhado pelo autor, cujo narrador-personagem define como “uma garota sensual, mistura de anjo e demônio” e se tornou sinônimo de Lolita. Essa palavra e sua definição no início do romance já condicionam a visão que a maioria dos leitores têm da personagem título. No romance, o narrador é um pedófilo de 50 anos, que se casa com a mãe de Lolita porque ficou louco pela garota, desde que a viu, e desposar a mãe foi o modo que encontrou de estar junto dela. Ele chegou até elas pelo anúncio de aluguel de um quarto, que alugou mesmo não tendo gostado do imóvel, assim que pôs os olhos em Lolita.
Passou a morar na casa delas e não demorou a casar-se com a mãe. Desde o começo, percebe um certo interesse de Lolita por ele, embora saiba que ela o vê como um galã de cinema como os das fotos na parede do quarto. Ele é escritor e começa a escrever um romance baseado no desejo compulsivo que sente por Lolita e em sua convivência com ela.

Um dia, a mãe lê o manuscrito e parte para cima dele furiosa. Fica tão desesperada que atravessa a rua correndo e morre atropelada. Enterrada a mulher, ele faz as malas e vai buscar Lolita no internato e leva- a direto a um motel, após revelar a morte da mãe. A partir daí, ele passa a viajar de carro com a garota, e a história se torna uma sucessão de pernoites em motéis e hospedarias, onde ele a apresenta como sua filha. Chegaram a residir numa casa de aluguel e Lolita foi matriculada na escola para não gerar desconfiança e ele poder simular uma vida normal. Há até uma cena na sala de aula, em que ele senta-se ao lado dela para boliná-la sob a carteira.

Alguns críticos têm interpretado o romance como “a angustiante história de um homem de gosto e cultura, que pode amar apenas pequenas meninas” e Lolita como “uma terrível pequena criatura, egoísta, dura, vulgar, e temperadamente tola”. Em 1959 o romancista Robertson Davies inocentou o narrador inteiramente, escrevendo que o tema de Lolita “não é a corrupção de uma inocente menina por um astuto adulto, mas a exploração de um fraco adulto por uma corrupta menina. Para muitos leitores essa é a interpretação convencional da personagem Lolita, a garota de 12 anos, que teve seu corpo usado durante meses, por um homem obcecado. Algumas coisas corroboram com essa visão deturpada: Há uma cena em que Lolita coloca as pernas desnudas no colo do padastro, indiferente à excitação dele; Ela não era virgem. Havia feito sexo com um garoto no acampamento de férias; Ela não resiste às investidas sexuais, não foge, nem denuncia o padastro. Começa a pedir a Hubert que lhe compre algumas coisas. As adaptações no cinema erotizam o romance e mostram uma garota pervertida seduzindo seu padastro. As pessoas se apegam a esses aspectos para normalizar o abuso infantil de que Lolita é vítima. Não poderia mesmo ser diferente, num mundo onde a mulher é reduzida ao seu corpo físico, sendo vista como um objeto a ser usado pelo homem, como se fora uma boneca inflável, e as crianças são vítimas de abuso dentro dos lares.

Esses leitores não enxergam que o narrador, em algumas passagens, mostra uma garota sem viço, sem desejo algum, um corpo do qual a alma se ausenta ao ser possuído, como na cena em que ela lê uma HQ enquanto ele a usa. Não há no romance uma única cena em que a garota demonstre excitação ou desejo e muito menos prazer. Outra coisa que me chama atenção é falas do narrador afirmando que ele destruiu a vida dela, assim como o posfácio do autor afirmando ter a ideia do romance lhe surgido ao ler no jornal sobre um macaco que, instado pelo cientista, fazia um desenho reproduzindo apenas as grades da jaula. Penso em Lolita assim mesmo, como um animal enjaulado, sem ter como escapar nem para onde ir. Onde iria uma menina sem parentes? Outra coisa que seus destratores desconsideram é que uma vítima desse tipo de violência, mesmo adulta, perde toda a autoestima e poder pessoal ficando refém do agressor. Antes de reler Lolita, eu li o best-seller “Lendo Lolita em Teerã” que mostra a coisificação da garota e a bestialidade de seu algoz a quem a autora Azar Nafisi chama de estuprador. Essa leitura me fez reler Lolita, sob novo ângulo, com a maturidade de uma mulher que sabe o quanto as pessoas estão adoecidas em sua sexualidade.

(Esse texto é de Prem Ragini, com formação acadêmica em Letras e Artes. É terapeuta tântrica e renascedora, com 07 anos de experiência, especialista em disfunção sexual e training em liberação de trauma. Escreve textos e artigos sobre sexualidade. Para saber mais acesse seus perfis: https://www.instagram.com/premraginitantra?r=nametag
https://redemetamorfose.org/perfil/prem-ragini)

Participe também dessa coluna! Envie o seu texto (de desabafo ou reflexão) para o email lmsn_91@hotmail.com ou entre em contato pelo instagram @luiza.moura.ef. A sua voz precisa ser ouvida! Juntos temos mais força! Um grande abraço e sintam-se desde já acolhidos!
Luiza Moura.

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Luiza Moura

Luiza Moura de Souza Azevedo é Natural de Feira de Santana- BA, Enfermeira, Especialista em Saúde Pública. Psicanalista e Hipnoterapeuta. Mestranda em Psicologia e Intervenções em Saúde. Compositora e Produtora Fonográfica. Com cursos de Francês e Inglês avançados e Espanhol intermediário. Imortal da Academia de Letras do Brasil/Suíça. Acadêmica do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires. Membro da Luminescence- Academia Francesa de Artes, letras e Cultura. Membro da Literarte- Associação Internacional de Escritores e Artistas. Doutora Honoris Causa em Literatura pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Publicou o livro: “A pequena Flor-de-Lis, o Beija-flor e o imenso amarElo”. Instagram: @luiza.moura.ef

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