Carina Lessa

Não artista

Lygia Clark | Da a criação de conceitos artísticos até métodos terapêuticos - arteref

Pouco afeiçoado ao caráter de verossimilhança, em 1954 o Grupo Frente surge pelas mãos de Ivan Serpa, o professor que requisitava dos alunos questionamento sobre os limites da arte. Dentre notáveis experimentadores, encontrava-se a propositora[1] Lygia Clark – que hoje completaria cem anos. Deitada de barriga para cima e envolta em linhas, posso sentir as vísceras e os fluxos corporais tal qual Clark prometia. Entrego-me. Vou respirando os fios enquanto a poesia me doma e me consome.

Não foi à toa que, certa vez, uma aluna desmaiou em Paris em performance de arteterapia. Diz-se que Lygia associou o evento ao despreparo psicológico do corpo em experimento. Será? Faço uma pausa pelos caminhos etimológicos e anatômicos da psique humana.

Do grego sympathetikos, a palavra simpático (relativo à simpatia) indica “junto” à “emoção, experiência”. A história do conceito de simpatia é vasta e se expande. Adam Smith, no século XVIII, assume a ideia de “simulação”, “identificação”. Dicionários mais recentes trazem a perspectiva de afinidade entre pessoas, proximidade de sentimentos familiarizados por uma concepção de amor. Sigo pela medicina. Atualmente,  o sistema nervoso simpático é responsável pela preparação do organismo em resposta a situações de estresse e sobrevivência. Thomas Willis, grande anatomista, foi perspicaz ao atribuir o nome simpático ao tronco quando percebeu sua capacidade de comunicação com quase todo o corpo.

Imagino o corpo da artista/obra aumentando a frequência cardíaca em espasmos musculares, liberando a adrenalina que contrai e relaxa todas as fibras. As pupilas ficam dilatadas em êxtase. O corpo transpira incontrolavelmente. Se houver tempo e o sistema não entrar em colapso, o renascimento projetará uma nova vida.

Lygia foi ousada. As proposições adentravam por voos subversivos e solitários de autoconhecimento. Trabalhava com cores, formas, aromas e texturas nos quais tudo era abismo do próprio ser. Na série “Bichos”, o contato com os objetos proporcionava organicidade a medida em que a obra era tocada e movida integrando-se aos receptores da proposta. No segundo seguinte, o público (leitor) era a obra e a propositora.

Volto aos enlaces da arteterapia. Meu corpo de linhas vai sendo destrinchado pela saliva continuamente enquanto deixo cair sobre o corpo de outro participante a substancial vida. Espero então que me receba e reverbere o poder imprevisível das palavras.

[1] Lygia Clarck rejeitava o título de artista, apresentava-se como “propositora”.

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Carina Lessa

É romancista, ensaísta, crítica literária e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ. Atua como professora de graduação e pós-graduação nos cursos de Letras, Pedagogia e Relações Internacionais da Unesa. É membro da Associação de Linguística Aplicada do Brasil.

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