Carina Lessa

Batendo o pasto com Maria Lúcia Alvim

 

 

“Eu era assim caçula dos arcanos

E quando me sovei, eu era assim

Eu era assim na voz dos minuanos

E pela primavera, eu era assim”

M. L. A.

            Sou um selvagem. O mundo embarcou no mar, tento dizer a Drummond. Digo-lhe por que me questiona a ousadia de caminhar como se pisasse a mata. Imagino-me beijando o seu rosto. Estive sentado debaixo de jabuticabeira, sou um homem da roça, um náufrago da vida. O céu está frondoso, observe os frutos. Não se preocupe com o sol, apenas abandone a cidade. Os homens são outros, descobri enquanto avançava pela Avenida Rainha Elisabeth em sua direção. As garras estão afiadas. A mata cresceu em mim enquanto observava do quinto andar todos os continentes. Trago a melancolia dos homens libertos. O trem é nosso, querido amigo. O trem é nosso. A fumaça inebria os olhos, mas sobrevivemos.

Converso com Drummond. Estava na mata e Maria Lúcia me convocou a bater o pasto. Assumo o balaio de gato, somos assim. A poeta, que hoje completa oitenta e oito anos, (re)ssurge indomesticável como já o fora em outros tempos. Ricardo Domeneck, um dos responsáveis por esse presente que nos chega, entrega-nos o livro como um pequeno milagre em tempos tão difíceis. Quarenta anos em silêncio. Um silêncio vivente de quem havia se inventado caveira. “E quando fui caveira eu era assim”, sentencia o último verso de um de seus notáveis sonetos.

A carne viva de Maria Lúcia é a magia dos versos de Batendo o pasto. Uma escrita deliciosamente rudimentar nos apresenta os excessos da natureza animal,  humana e vegetal. Os poemas são agrupados em sete partes. A segunda, denominada “Coluna”, é constituída de um único soneto. “Era uma tarde frese, empelicada”, o primeiro verso nos avisa. Anuncia o conto a atmosfera de uma tarde ditosa, feito criança protegida em âmnio materno. Confessa-nos: “Não tinha resto meu, se tudo eu tinha/Não era nome ou rosto, de onde eu vinha”. Carne viva, carrega um ele (sem rosto) na segunda estrofe que logo se transformará em um nós indefinido – banhado pelo brilho de um tempo incólume e profundo.

Mais à frente, tiro da algibeira de Maria Lúcia o soneto dedicado à Clarice. “O humano era disfarce/ para o bicho que nela dormitava”. Escreve-se animal. As duas mulheres são o cavalo que Guimarães Rosa insiste em não domesticar. Trotam pelas palavras e andam à deriva.

Assim esboroar. Chega-te Deus:

pela via do corpo, tergiverso.

Baldado o coração, que bate em cheio.

          E depois de ser caveira, esfarela-se em adubo de terras ou águas de rios pouco navegados. Sofre o impacto da castidade, transmuda-se em “usufruto/do eterno luto”. Moinho, serraria e engenho abatem o corpo em experiências múltiplas. Clarice nos revelou pela via crucis de Lori em descoberta ao se lançar no banho de mar.

Lori, em Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres, se entrega às novidades e não se pergunta o porquê, apenas vive e morre. Descama e recebe o ricochete sem parcimônia. Maria Lúcia avança, rodeia, simboliza em ritmo pouco usual na história da nossa literatura. Cabriolamos em cantigas de roda e amores anacreônticos. O timbre, como nos diz, é oferecido pelo leão, mas também pelo cordeiro que se ajeita todo seu. Somos boi, pasto e a própria fome. Embarcamos no êxtase da língua. E tudo é assim.

De monstro selvagem, Maria Lúcia Alvim se guardava pura em campo aberto, resgatou-se perigosamente em estábulo de fazenda. Acarinho a crina e a recebo. Espero. Pego das palavras do também mineiro Silviano Santiago (oferecidas a Guimarães Rosa) e lhes peço: deixem que o animal se achegue com desenvoltura e graça. Abandonem o hábito encrespado do homem e a mantenham em seu habitat originário.

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Carina Lessa

É romancista, ensaísta, crítica literária e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ. Atua como professora de graduação e pós-graduação nos cursos de Letras, Pedagogia e Relações Internacionais da Unesa. É membro da Associação de Linguística Aplicada do Brasil.

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