LiteraturaRenato Cardoso

Barroco – a dualidade da alma

Sinceramente, adoro um feriado prolongado. Sempre que possível, viajamos para lugares diferentes e assim fizemos. Era um feriado de 1º de maio, dia do trabalhador. Era uma quinta-feira e a escola onde estudava havia enforcado o feriado, só voltaríamos na segunda. Meu tio José, que era professor universitário, também só voltaria a trabalhar na segunda. Minha mãe e meu pai não deram a mesma sorte. A vovó Gertrudes era aposentada e minha irmã estava na mesma condição que eu.

A vovó ligou para minha mãe e perguntou se poderíamos ir com eles a uma viagem para as cidades históricas de Minas Gerais (você deve estar se perguntando se nós só fazemos passeios culturais, a resposta é não. Vamos a praia, ao shopping, a pizzaria, etc…). Minha mãe conversou com meu pai e eles resolveram deixar, pois as nossas notas estavam boas.

Na quarta, arrumamos nossas malas e fomos dormir cedo, pois sairíamos às seis da manhã na quinta. A noite demorou para passar, acho que era a ansiedade. Viajaríamos de avião pela primeira vez (nossas viagens eram sempre de carro com meu pai). Às seis em ponto, estávamos no portão de casa esperando meu tio e minha avó, que passariam de táxi para irmos ao aeroporto.

E como o que é combinado não fica caro, às seis eles estavam lá. Entramos no carro (minha mãe chorava como se nós nunca mais fossemos voltar) e fomos. No caminho, minha avó nos encheu de perguntas sobre que tínhamos colocado nas malas. Respondemos todas com total carinho. Meu tio estava no banco carona ao lado do motorista. Ele não pronunciou um som sequer.

Enfim, chegamos ao aeroporto, pegamos nossas malas e embarcamos. Senti um frio na barriga quando o avião decolou. A viagem foi tranquila, logo estávamos em Belo Horizonte e de lá pegamos um ônibus até a cidade de Ouro Preto. A viagem durou aproximadamente duas horas.

Ao chegarmos à cidade história, nos alojamos em um hotel, descansamos e saímos para comer algo. No primeiro dia que ali ficamos, não saímos para visitar nada. Já no dia seguinte, pela manhã, acordamos cedo e fomos visitar tudo que poderíamos. Meu tio José sugeriu que começássemos pelas igrejas, e assim fizemos.

Pegamos um motorista de aplicativo e pedimos para nos deixar na Igreja de São Francisco de Assis. Não demoramos e ali estávamos. Uma igreja antiga, mas muito bonita. Meu tio logo assumiu o posto de guia e começou:

“Essa igreja foi feita por Aleijadinho, um dos maiores artistas barrocos que o nosso país teve. Ele nasceu na cidade. Era filho de carpinteiro, mas não teve seus trabalhos devidamente reconhecidos na época, devido a sua condição de mestiço, o que não lhe permitiu assinar parte de suas obras. Quanto ao nome, ele assim o teve, pois uma doença (não se sabe se foi lepra ou sífilis) deformou seus pés e suas mãos. Mas nem por isso deixou sua arte de lado. Há quem diga, que mesmo após suas mãos ficarem totalmente inúteis, ele as amarrou com um cinto para que pudesse segurar o martelo e a régua. Aleijadinho foi uma das figuras mais importante do Barroco brasileiro”.

Parecia que eu havia voltado no tempo. A cidade toda tinha um estilo diferente. Algo que eu ainda não havia visto, somente em fotos. Um nome novo me foi apresentado, Barroco. Meu tio sabia que eu não ia ficar quieto enquanto ele não me explicasse tudo.

Então, tio José prosseguiu: “O Barroco teve início no final do Renascimento, no início do século XVII na Europa. A Igreja havia passado por uma crise. A Reforma Luterana, que deu origem a Igreja Protestante que conhecemos hoje em dia, dividiu a igreja e seus fiéis. Numa atitude de reação, a Igreja Católica passou pelo processo de contrarreforma. O Concílio de Trento realizado reafirmou o Catolicismo, provocando diversas mudanças dentro da Igreja. A Companhia de Jesus, criada pelo jesuíta Inácio de Loyola, tomou conta de quase toda a educação e a Inquisição, que de santa não tinha nada, deu o tom de repreensão e reafirmação de poder. O Barroco assumia o papel de uma corrente artística ligada a fé. Igrejas e mais igrejas eram construídas neste período, assim como imagens de santos e monumentos ligados a religião. Por toda Europa, a Igreja Católica se associava aos Estados, influenciando a arquitetura dos palácios da época, dando a eles um toque de admiração e poder”.

Deveria ser complicado viver neste período. Imagina, se você fosse um artista e fizesse algo que a igreja considerasse heresia, você poderia parar na prisão ou ser queimado em praça pública. Imagina o quanto de obras a humanidade não perdeu. Mas a necessidade de saber era grande e tio José continuou:

“Garoto, olhe as imagens no teto da igreja. Parece que estamos na Itália, certo? Mas era comum nas igrejas da época este tipo de obra mais detalhista. O Barroco não foi uma corrente unicamente literária, ela também teve seu espaço entre os artistas plásticos e escultores. Na Itália, local onde o Barroco nasceu, tivemos Caravaggio. Na Espanha, Cervantes (autor de Dom Quixote). Em Portugal, Padre Antônio Vieira e seus sermões. A arte barroca foi marcada pelo dualismo, ou seja, pela contra posição de ideias. Talvez a maior delas tenha sido a oposição entre a razão (vinda do Classicismo) e a fé (pregada pela Igreja e sua contrarreforma)”.

Realmente, desde que o Homem se entende como ser pensante, a fé e a razão nunca conseguiram dar as mãos. Uma pena! Imagina um mundo onde a ciência explicasse algo e a fé corroborasse a comprovação, ou vice-versa.

Tio José prosseguiu: “As principais características do Barroco, sem dúvidas, foram: as oposições entre o mundo material e o mundo espiritual; e entre o teocentrismo e o antropocentrismo. O Homem barroco tinha uma enorme preocupação com sua salvação após a morte. Ele sabia que o tempo era efêmero e por causa disto, reis e príncipes cediam terras a igreja em troca absolvição de seus pecados. O Cristianismo era tema presente na maioria das obras do período, assim como a morbidez e a idealização amorosa. O uso de hipérboles e antíteses era comum. O Carpe diem ditava como a vida deveria ser”.

Carpe diem? Nossa! Cada vez que eu converso com ele, eu aprendo palavras e expressões novas. Mas o que seria isso? Sem esperar a pergunta, ele já foi logo explicando:

“Carpe diem era o desejo de aproveitar a vida, mas como o Homem barroco era conflituoso, ele não sabia como aproveitar, ou seja, ele não sabia se cedia aos desejos do mundo material ou se buscava a sua salvação, tendo uma vida ditada pela fé e pela igreja”.

“Duas outras características, talvez as mais importantes, são o cultismo e conceptismo. A primeira era conhecida pelos jogos de palavras, pelo uso de termos cultos e pela descrição excessiva, assim como pelo uso de hipérboles, antíteses e paradoxos. Já a segunda, era o jogo de ideias, era a arte da retórica, ou seja, era tentar convencer alguém de algo, mostrando a essa pessoa, diferentes argumentos sobre a mesma coisa. O pensamento era lógico, conciso e o conteúdo textual valorizado”.

“E no Brasil? Como foi?” – perguntei a Tio José, antes que ele continuasse.

“No Brasil, o Barroco foi a nossa primeira escola literária, embora muitos pesquisadores contestem, dizendo que foi simples réplica dos europeus. Só ganhou força no século XVIII (temos a obra “Prosopopeia” de Bento Teixeira como marco inicial em 1601) com a descoberta de ouro em Minas, mas precisamente na cidade onde estamos, que possibilitou a construção de diversas igrejas neste estilo. O poder econômico, antes centrado na Bahia, troca seu eixo, vindo para as Gerais. Academias são fundadas Brasil a fora. O saber começa a ganhar espaço em nossas terras”.

“O Barroco no Brasil continuou mostrando sua força mesmo dentro do Arcadismo (próxima escola literária). Os nossos principais autores são: Gregório de Mattos, mais conhecido como Boca do Inferno, por fazer críticas ferrenhas a toda a sociedade sem distinção de classe social, gênero ou raça. Muita das vezes não poupava palavras, usando inclusive palavrões em seus textos. Quando o tema era amor, ele causava o choque na plateia, mostrando uma concepção amorosa diferente da pregada pela Igreja. Mostrava o amor carnal, quase pornográfico. Mas encontramos Gregório de Mattos em poesias líricas e sacras (religiosas) também; e Padre Antônio Vieira, que destacou pelos seus sermões. A obra literária de Antônio Vieira pertence tanto a literatura brasileira quanto a literatura portuguesa, pois ao longo de sua vida foi se dividindo entre os dois países. Em Portugal, lutou contra a inquisição, sendo condenado por heresia, mas anistiado pela Igreja. No Brasil, lutou contra a escravidão no Maranhão, levando os jesuítas a serem expulsos do Estado e voltarem a Lisboa”.

“Para concluir, podemos dizer que Gregório de Mattos era o nosso cultista, enquanto Padre Antônio Vieira o nosso conceptista”.

O passeio em Ouro Preto continuou até o final do dia. A segunda cidade que visitamos, no dia seguinte, foi Tiradentes, mas isso já é uma outra história.

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Renato Cardoso

Graduado em Letras pela UERJ FFP. Pós-Graduado em Educação à Distância – Uninter. Atua como professor desde 2006 na rede privada. Leciona Língua Inglesa e Literatura em diversas escolas particulares e em diversos segmentos no município de São Gonçalo. Coordenou, de 2009 a 2019, o projeto cultural Diário da Poesia, no qual também foi idealizador. Editorou o Jornal Diário da Poesia de 2015 a 2019 e o Portal Diário da Poesia em 2019. É autor e editor de diversos livros de poesias e crônicas, tendo participado de diversas antologias. Apresenta saraus itinerantes em escolas das redes pública e privada, assim como em universidades e centros culturais. Produz e apresenta o programa “Arte, Cultura & Outras Coisas” na Rádio Aliança 98,7FM. Hoje editora a Revista Entre Poetas & Poesias. Contato: professorrenatocardoso@gmail.com

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