Erick BernardesHISTÓRIAS DE ARARIBOIA

Buraco Quente: um topônimo popular niteroiense

Série: Histórias de Arariboia

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Quem já morou em cidade pequena sabe das maravilhas de se poder compartilhar algumas vivências que marcaram sobremaneira o espírito. Segurança de bairro, amizades aos montes, bate-papo noturno na beira da calçada sem pensar em assalto ou coisa do tipo. Pois é, mas nem só de ternuras e bons convívios esse modo de vida oferece. Prova disso é que, em Niterói de antigamente, não raras vezes, as confusões entre vizinhos foram tamanhas, a ponto de nomear parte de um antigo bairro da Ponta D’Areia com um topônimo peculiar. Quer saber que lugar é esse? Sim, claro, revelo, você talvez o conheça pelo apelido de Buraco Quente. E vamos à história.

De acordo com Roberto Affonso Pimentel, a antiga moradora da casa 40, da tradicional Villa Carneiro (na região da Ponta D’Areia), a dona Cilinha, relatou que “as mulheres que moravam no trecho atrás do Colégio sempre foram criadoras de caso, aprontando confusões umas com as outras, o que as deixava em polvorosa e sobressalto” (2006, p. 36). Incrível como histórias brotam de casos curiosos, impossível não se surpreender com a narrativa, imagine! Soube-se que até uma senhora com ares fofoqueiros apelidada “Madame Espia Tudo” residia e lançava seus bugalhos no cotidiano da vida dos outros. Verdade, reconheço na minha história de menino algumas “matracas” assim também. Sim, umas três ou quatro faladeiras de beira de janela. Em vez de fazer o bem às pessoas, elas criavam aporrinhações coletivas. Ou era vigiando a roupa dos outros na corda do varal, ou era comentando entre os dentes quem comprava mercadoria de luxo ou não. Fofoqueiras, isso sim. Mas nem sempre a paciência santa andava ao lado do morador. Parcimônia é uma qualidade conquistada, mas também acaba rápido. Resultado? Discussões, xingamentos e alguns pedregulhos lançados no telhado dos outros. O apelido do lugar pegou, Buraco Quente, território de confusões.

Outra explicação não menos interessante aponta a existência passada de brigas ou intolerâncias territoriais. Situada atrás do velho Colégio da Villa Carneiro, a localidade abrigava os briguentos que não eram poucos. Gangues de ruas, opressão de logradouros. Ainda de acordo com Pimentel, “cada território tinha sua turma” e “elas competiam entre si”(p. 37, 2006). Havia medo nesses espaços específicos, a ponto de um grupo de residentes referirem ao reduto com lugar de trogloditas. Lá onde a galera do Rinque não seria bem-vinda, pois decerto o risco de tomar de quebra alguns safanões configurava realidade.

Inacreditável, não é mesmo? Nem só de lembranças de ternuras vive o saudoso morador da Ponta D’Areia, ali mesmo, mais especificamente na bucólica e admirável Villa Pereira Carneiro. Buraco Quente, eis o topônimo popular.

Nota do autor: esta crônica decorre da minha leitura do capítulo do livro Villa Carneiro, de Roberto Affonso Pimentel, e também de uma breve conversa por telefone. Devo a ele nosso mais terno agradecimento. Qualquer equívoco de interpretação é de total responsabilidade minha. Obrigado, querido Pimentel, muitíssimo obrigado.

Fonte: PIMENTEL, Roberto Affonso. Villa Pereira Carneiro. Niterói, RJ: Nitpress, 2006.

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Erick Bernardes

A mesmice e a previsibilidade cotidiana estão na contramão do prazer de viver. Acredito que a rotina do homem moderno é a causadora do tédio. Por isso, sugiro que façamos algo novo sempre que pudermos: é bom surpreendermos alguém ou até presentearmos a nós mesmos com a atitude inesperada da leitura descompromissada. Importa (ao meu ver) sentirmos o gosto de “ser”; pormos uma pitadinha de sabor literário no tempero da nossa existência. Que tal uma poesia, um conto ou um romance? É esse o meu propósito, o saber por meio do sabor de que a literatura é capaz proporcionar. Como professor, escritor e palestrante tenho me dedicado a divulgar a cultura e a arte. Sou Mestre em Letras pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e componho para a Revista Entre Poetas e Poesias — e cujo objetivo é disseminar a arte pelo Brasil. Escrevo para o Jornal Daki: a notícia que interessa, sob a proposta de resgatar a memória da cidade sob a forma de crônicas literárias recheadas de aspectos poéticos. Além disso, tenho me dedicado com afinco a palestrar nas escolas e eventos culturais sobre o meu livro Panapaná: contos sombrios e o livro Cambada: crônicas de papa-goiabas, cujos textos buscam recontar o passado recente de forma quase fabular, valendo-me da ótica do entretenimento ficcional. Mergulhe no universo da leitura, leia as muitas histórias curiosas e divertidas escritas especialmente para você. Para quem queira entrar em contato comigo: ergalharti@hotmail.com e site: https://escritorerick.weebly.com/ ou meu celular\whatsapp: 98571-9114.

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